Arquivo do mês: fevereiro 2014

Putz´n Grilla: Dead or Alive..YOU COME WITH ME!

Remake de ROBOCOP:

Trilha sonora clássica remixada em uma versão DUMBSTEP. Um Robocop supersônico combatendo robôs terroristas feitos em escalas colossais enquanto tenta encontrar um jeito de sair com sua parceira Lewis para mostrar o quanto “sexy machine” ele se tornou.

Sim! Esse seria o remake perfeito para o público americano dos tempos de hoje… SÓ-QUE-NÃO!

Chegou aos cinemas brasileiros o Robocop do diretor José Padilha (Tropa de Elite 1 e 2). O filme começou bem nas bilheterias internacionais, mas não foi tão bem nas terras americanas. A crítica esta dividida não por menos: Em tempos de Transformes e Ironman, conseguiria Padilha tornar Robocop relevante novamente? Acabaria deixando a audiência um tanto quanto “Robofóbica”?

A automatização do combate ao crime e sua relação com o fascismo é o tema principal do ícone “cult” do final dos anos 80. Um clássico da época: com sangue, brutalidade, piadas e situações “politicamente incorretas”. Nesse ambiente, o antigo Robocop apresenta um debate sobre escalada da violência, segurança pública e condições humanas (a velha poética do “homem mecânico”) de uma maneira única, com uma estética que hoje caberia apenas aos filmes de alta classificação e baixa lucratividade.

 Essa reinterpretação tem o desafio de traduzir tudo isso de maneira mais comercial, sem perder densidade: Mantendo sua marca de crítica política e social, sem desrespeitar o clássico e abater uma nova audiência acostumadas com os estrondosos e explosivos filmes de hoje, feitos em fundo verde, repletos de pontinhos, CGIs…etc. Tarefa difícil.

 Porém! Padilha é o cara! Inteligente, com um domínio incrível de direção. Conseguindo produzir algo de qualidade dentro das demandas da produção,do marketing, dos diretores executivos e fabricas de bonequinhos: Enfim, todo o sistema inerente ao Blockbuster americano.

Foi astuto ao não tentar prever o futuro retratando uma Detroit crível em um ambiente reconhecível para qualquer audiência. As armas ainda fazem muito barulho com balas de altíssimo calibre e o crime como um todo é muito “old school”. Os recursos do Robocop são bem prováveis, aqueles que não existem no tempo presente não devem demorar muito. Acesso a todas as câmeras e todas as informações na internet. Isso já torna Murphy um ser quase onipresente… esses dados nas mãos da polícia e do governo mostram uma realidade sem nenhuma privacidade! Murphy é o BIG BROTHER, pelas palavras do próprio Padilha (Reclamem com o cara!).

Se você é tão amante do clássico de Verhoeven e achava tudo apresentado até aqui muito água com açúcar… não se deixe enganar. Se não temos a morte cruel do Murphy e tiros na genitália de estupradores, com certeza temos a crueldade da sua nova realidade. As questões envolvendo sua família e como o amor por ela se relacionam com as condições impostas por programações e protocolos ditam todo o tom do filme.

Sim! A realidade de Murphy não é muito diferente da vida real, pois se até um robô meio-homem pode reescrever suas prioridades, ignorar protocolos, em nome da família e do amor não te leva a pensar como estamos gastando nosso perecível e precioso tempo hoje em dia?

Como não soltar um “Putz” quando revelam a real condição do protagonista: Sobrou muito menos do Murphy que o filme original. Isso acaba tornando muito mais humano sua luta pelo que resta. O que é o corpo humano, se não uma máquina? Somos todos fantasma na caixa e o que resta no final, a capacidade de sentir, tomar decisões e sofrer as conseqüências dela é exatamente o que nos diferencia do seu celular, por exemplo, que inclusive, deve saber mais da sua vida que você!

Essas condições humanas que restaram a Murphy são tratadas com extrema artificialidade. O que determina suas diretrizes é o mercado, deadlines, expectativa corporativas e cuidados com a imagem. Não tão diferente de qualquer outra pessoa. Já estamos presos em uma ilusão de “livre-arbítrio” em um mundo de facebook, big brother e notícias manipuladas.

O nível de artificialidade da vida contemporânea torna praticamente impossível não se identificar com as condições da vida de Murphy. Esse é o principal ponto que o diferencia de todos os personagens do gênero. Tony Stark não precisa da sua armadura para viver: É incoerente que alguém que descobriu um novo elemento na tabela química com alguns dias demore três filmes para encontrar a solução de como remover estilhaços de ferro próximos ao coração. Optimus Prime tem sua inteligência computadorizada tão apurada quanto um humano, com sabedoria e honrardes, mas não vive as questões cotidianas e é questionável se são capazes de amar…. Talvez o Wall-e seja tão humano… não…nenhum deles é tão humano quanto Robocop: E isso o coloca acima de todos esses. Isso o torna extremamente relevante para os dias de hoje.

Robocopfinal-web

A produção acerta ao chamar games designers para trabalharem no filme. Apesar de não gera grande impacto em quem acompanha games, deve funcionar para o público geral. É impossível não comparar com Metal Gear, mesmo que a franquia de games apresente opções mais ousadas (como o isolamento da mandíbula do cyborg ninja). O corpo de Murphy parece muito mais plástico do que metal em alguns pontos do filme, não fica claro o material envolvido e para um robô tático ele poderia fazer menos barulho ao se movimentar.

O filme não tem excessos, porém, todas as questões filosóficas, políticas e éticas são reduzidas à pinceladas deixando grande parte do tempo para o drama do Murphy. Por sorte não aumentaram o tempo da ação (como sempre querem os produtores) que é bem dosada, coreografada e boa de assistir. Ficamos com foco no desenvolvimento do protagonista, e tudo acaba por deixar a expectativa de uma continuação, se houver.

Quanto às interpretações: O Murphy do Kinnaman tem olhos grandes e emotivos, sua atuação antes do acidente desperta um interesse em ver mais do detetive antes de ser Robocop. Esperava mais do Michael Keaton, contracenando com o todo poderoso Gary Oldman e Samuel L. Jackson, fica difícil notar a presença do antigo Batman: Já o vimos “mais louco” em filmes menos importantes. O resto preenche a ficha.

Gostaria de estrear a sessão “Se fosse comigo…” nesse filme, mas, dentro das condições atuais de pressão e umidade, o filme é impecável. Infelizmente, saudosistas tentam diminuí-lo a mais um remaker fracassado, enquanto a parte da crítica que se propõe a coisas novas aplaude e pede por mais. Peço por mais PADILHA nos blockbusters internacionais: O resultado é um elenco mestiço contando histórias humanas em um ambiente realmente crível, que procura gerar reflexões relevantes e transformações naquele que procura apenas comer uma eventual “pipoquinha” e gastar um tempo enquanto assiste coisas legais.


Dragão Lyoto Machida

O dragão Machida!

O dragão Machida!


Putz´n Grilla: Galo 2014

GALO2014 galo2